quarta-feira, agosto 09, 2006

Fotos e pensamentos

Posto hj algumas fotos da semana passada, com os comentários devidos.


Decoração do tanabata nas ruas de Kurashiki.
No Brasil, sempre aprendi a cultura japonesa através do que foi passado de meus avós e de meus pais. Como meus avós vieram ao Brasil quando eram criança, achava que muito das coisas que meus pais faziam era coisa do passado, que os japoneses de agora ainda não faziam mais. E não apenas meus pais, mas toda a comunidade nikkey. Por exemplo, o tanabata matsuri na Liberdade sempre me pareceu algo meio fake, meio coisa do passado...um costume que parece tão de interior, um negócio meio rural...achava que não tinha mais isso no Japão do século 21.
Engano total meu. A toda hora vejo cenas que dão significado a tudo o que somos no Brasil. Como no exemplo do Tanabata matsuri, papeis são colocados em varios locais para as pessoas fazerem seus pedidos, até na minha escola, em todo lugar.

Uma das coisas que acho engraçado: sempre que me despeço de minha avó no Brasil, ela vai até a porta e fica fazendo tchau até eu sumir do mapa. Sempre achei que ela fazia isso porque ela gostava bastante da gente. Não que ela não goste, mas chegando aqui eu percebi que esse é um costume japonês, um modo de mostrar respeito, consideração! Este exemplo pode soar sem significado para alguns, mas para mim significa muito. É o que eu sou, é como fui criado. A cada instante no Japão eu consigo entender melhor a mim mesmo, a minha família e minha comunidade.



Hanabi na sexta feira. 2 horas de fogos de artificio. Tendas que vendem Takoyaki, kakigori, yakissoba, cerveja, refrigerante. Ruas fechadas. Povo na rua, aglomerado de gente, muita gente. Barulho, gente indo, vindo. Prédios gigantes, arquitetura belíssima, show de fogos na frente do rio que corta a cidade. Pessoas vestidas de yukata. Muita gente mexendo em seus celulares.
Que lugar mais único o Japão! A cidade com seus prédios modernos, tecnologia em todo lugar mas parece que suas almas são as mesmas de antigamente. Festejos que tem um aspecto tão rural acontecendo num cenario que parece tão moderno, asfalto. Mais ou menos como uma festa junina em plena Avenida Paulista.


Diálogo retirado no momento de tirar a foto:
- Ei Yuka, quem são aqueles dois de komono??
- Sei lá, vamo lá tirá uma foto com eles??
- Puta, que vergonha...
Fala da Japonesa que nos acompanhava - Esses trajes são de casamento. Vão lá! Não se vê isso a toda hora aqui.....
- Chama a galera então, vamo lá!
- Sumimasen, burajiru no kenshuin desukedo, shashin wo isshouni totemoi desuka??
...

terça-feira, agosto 08, 2006

Garota de Miyasaki conhece Momotaro em pessoa


Gislaine num hospício em Okayama

Gislaine, bolsista de Miyazaki, chegou segunda de noite em nossa casa. Por causa da vinda dela, fizemos uma feijuca, farofa, salada, um jantar bem brasileiro! Foi uma noite muito agradavel!
Terça de manhã acordamos cedo e levei ela pra ver a ponte Seto Ohashi. Por um descuido, acabei esquecendo minha mochila no trem e acabou que ela visitou a província de Kagawa antes de mim. Minha própria mochila, acreditam nisso?? Claro, depois fui lá buscá-la e a encontrei no achados e perdidos chorando por tê-la esquecido assim depois de longo relacionamento. Marco na viagem: por descuido, acabei visitando Kagawa-ken pela primeira vez. Sou muito sortudo. Comigo até os descuidos dão certo. Incrível!
Depois levei-a para visitar o parque Korakuen (lugar que já citei bilhões de vezes aqui). Passeamos bastante e depois voltamos pra perto da estação central de Okayama e comemos Okonomiyaki num restaurante que já conhecia.
Senti muito prazer em levá-la para passear. É um sentimento de irmandade o dos bolsistas. Estamos todos na mesma situação, no mesmo barco. Todos estamos num lugar estranho e nos sentimos como irmãos numa viagem sem igual.
Apresentei Okayama como se fosse minha própria casa e espero ter passado uma boa impressão.

Los hermanos!!


Ai Edu, o Eliel e o Bonilha vieram aqui me ver nesse fim de semana!! E vc, nao vem?? hahahha
Foto tirada na casa do Eliel antes de embarcar pra ca

domingo, agosto 06, 2006

Homestay



Fomos o Leandro e eu juntos fazer homestay no sabado e no domingo. A familia se chamava Tanaka. O pai tem 54 anos e trabalhana na Mitsubishi. Ele é meio caladão mas gente boa. A mãe tinha 59 anos, toma conta de filhos de mães que trabalham e ajuda no Centro de estrangeiros. Sempre recebe estudantes estrangeiros como eu para mostrar um pouco de como é uma família japonesa. Ela é o contrário do pai. Fala mais que a boca e muitas vezes eu me perdia no que ela estava falando. Tudo bem, já estou me acostumando a não entender tudo o que as pessoas falam. Muitas vezes o essencial são apenas algumas palavras chaves e sabendo isso, é possivel formular uma resposta que tenha a ver com o tópico da conversa. Coisas que estrangeiros entendem bem...
Bom, eles tem um filho da minha idade, qual seja, 27 anos, que trabalha perto de Toquio. Ele é 3 meses mais velho que eu e ainda é solteiro.

Quem realmente nos convidou pro Homestay foi a mãe, então conversamos muito mais com ela. Sábado de tarde e a noite conversamos bastante sobre relacionamentos, casamento, a richa entre japoneses e chineses...incrivel como sempre tenho esbarrado neste tópico...será que tenho algo a aprender também com os chineses??
Bom, a verdade é que nossa conversa foi extremamente útil para conhecer melhor o pensamento dos japoneses. A mãe nos considerava japoneses e muitas vezes falava para nós ficarmos no Japão e vivermos por lá, mais ou menos como uma volta dos que foram ao Brasil.
Ela dava muito valor ao sangue. Disse algo que já tinha ouvido antes, que por mais que tenhamos outra cultura, sempre o negócio do sangue fala mais alto, que, no fundo mesmo, eu não conseguiria fugir à minha raça, minha descendência. Que eu, apesar de ter nascido e crescido no Brasil, sempre teria o lado japonês que fala mais alto.
Eu refutei veementemente sua opinião, claro, com toda a educação que me ensinaram, e disse aquilo em que acredito, que gente é igual em qualquer lugar, seja no Paquistão, no Brasil ou no Japão. Muda a cor da pele, mudam traços físicos, mudam cortes de cabelos, mudam valores, costumes, vestimentas, mas isso tudo é muito superficial perto do que o ser humano é no seu âmago. Como já escrevi antes, todo mundo ama, sofre, sente compaixão, amizade, ódio, raiva. Ninguém escapa disso. E terminei dizendo que acho a experiência racial no Brasil, onde se jogam todos as raças num mesmo caldeirão, ótima para eliminar os preconceitos e diferenças, mesmo que isso de fato ainda não tenha acontecido.

Falei também pra ela algo que estive pensando naquele momento. Que se me perguntassem se eu me achava brasileiro ou japonês eu realmente não saberia dizer. Talvez diria: não sou nem japonês nem brasileiro. Já viajei pra vários lugares percebi que todo mundo é igual, todo mundo veio e vai pro mesmo ralo (desculpem a expressão chula....). Sou um ser humano, igual a qualquer um, igual a um brasileiro ou a um japonês. Sou um cidadão do mundo.

Mas ai então ela me falou que antes também pensava assim, mas com a idade e a experiência ela foi mudando seus conceitos. Como também ouvi essa mesma coisa de minha tia, que na hora do juizo final, na hora H, o sangue fala mais alto, eu não sou burro de descartar completamente isso que ela falou.

Hoje notei algo que talvez puxe para a teoria da sra. Tanaka. Percebi como os jovens nikkeys da minha geração no Brasil, apesar de conhecerem muito pouco da cultura de nossoas ancestrais, continuam fazendo de uma forma ou de outra as mesmas coisas que os japoneses fazem. Quero dizer, apesar de eu e minha geração de descendentes termos nascido no Brasil e absorvido a cultura brasileira, inconscientemente vamos para o mesmo lado, fazemos a mesma coisa.
Notei isso vendo os os grupos de dança que participaram no Festival Uraja, que aconteceu no sábado e domingo aqui em Okayama. As danças que os japoneses gostam são feitas sempre em grupo e todos dançam a mesma coreografia, criando a coisa da organização, da harmonia. Os descendentes de japoneses no Brasil gostam de dançar street dance. Tirando todo o chantilly que cobre o essencial, no fundo é a mesma coisa, um grupo de pessoas dançando juntos uma coreografia, diferentemente dum tango ou um forró que se dança a dois.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Novos cavaleiros do reino das selvas num Beer Garden no Korakuen



Hoje foi mais um dos meus dias de folga. Lá na escola está acontecendo um evento e meu responsável me falou que não precisava comparecer à escola essa semana, e na semana que vem.
Trabalhei de manha em casa e depois fui almoçar com dois bolsistas novos que ainda não conhecia.
Um é o Danilo, 24 anos, dentista de Bauru e já está estudando aqui faz mais de um ano. A outra bolsista é a Larissa, tem 26 e também é dentista. Ela chegou faz duas semanas em Okayama. Ambos fazem seus estudos na mesma faculdade-hospital, a mesma em que a chinesa Lily faz estágio.
Conheci-os através de uma amiga do Brasil, que também está no Japão como bolsista.
Muito simpáticos, combinamos mais à noite de ir ao Parque Korakuen pois nesta temporada ele fica aberto de noite, e rola umas cadeiras e mesas como um barzinho a céu aberto, bem ao estilo de Sampa. Só faltava o cara na cadeira sem encosto com o violão no colo e tocando umas bossas, MPB...
Consegui juntar toda a família e fomos todos para o Korakuen. Quando digo família, me refiro a Lily, Leandro e Yuka, que são como se fossem meus irmãos aqui.
Hoje fiquei pensando em algo que tenho percebido aqui e que considero importante. Enquanto estou com Lily, Leandro e Yuka, me sinto necessário. Como consigo falar melhor o nihongo e por ser mais velho, acabo sempre organizando os nossos compromissos - a Lily tem 37 anos, mas como ela não fala japonês, a responsabilidade acaba caindo nas minhas mãos. Na verdade, eu tenho de guiá-la. Muitas vezes, eu sou seu intérprete quando ela fala com os japoneses e com a Yuka. Desta forma, sempre me sinto útil, mais participativo, e, consequentemente, me sinto bem por causa disso.
O outro lado, é quando estou na escola convivendo com os estudantes japoneses. Ontem mesmo fui num encontro do pessoal da minha classe promovido por uma professora. Incrível a minha sensação de solidão no meio de tanta gente! Realmente, não saber se comunicar é muito desagradável. Ficava ouvindo as pessoas conversarem e não tinha a mínima idéia do que falavam...
São essas duas situações opostas que tenho convivido estes últimos tempos. Acabo aprendendo com as duas.
Com os bolsistas, tenho trabalhado muito a coisa da liderança, da melhor forma de lidar com cada tipo de pessoa. Acho que tenho me saído bem.
Com os japoneses, acho que tenho aprendido um pouco de humildade, a saber compartilhar, ajudar. Nos momentos em que me sinto só, enquanto eles conversam o japonês sem eu entender, eu penso em como deve ser horrível pra Lily ter de conviver com três pessoas da mesma nacionalidade. Muitas vezes, como somos tres brasileiros e a Yuka não fala inglês, acabamos falando boa parte em português, e sei que isso chateia a Lily. É nessas horas em que estou com os japoneses que dou valor àquelas pessoas de coração mais caloroso que vem me ajudar, sendo pra me explicar o que estão falando ou apenas para trocar uma uma conversa comigo. Me sinto como um deficiente. Acho que só um deficiente sabe aqueles que realmente tem um coração bom, um espírito mais elevado, pois estes são os únicos que se aproximam para compartilhar o que tem. Ele realmente sabe quem são os egoístas e quem não são. Ou talvez consiga distinguir melhor, pois sei que há muita gente que ajuda para proveito próprio e não com sentimento de ajudar o próximo.
Sinto como se estivesse tentando achar o equilíbrio naquelas balanças de dois lados.
Uma puxa para seu lado, cada uma com coisas valiosas para me ensinar mas sempre na medida certa, pois se for exagerado, pode cair e derrubar tudo. Difícil a tarefa, não posso dar uma relaxada, mas acho que tenho aprendido bem.

terça-feira, agosto 01, 2006

Conversas e viagens



Área histórica de Kurashiki



Casa muito bonita

Terça, como não tive aula fui dar um passeio em Kurashiki, cidade a 12 minutos de trem de Okayama. A Asada me acompanhou.
Cidade bonita, histórica, muitas casas seculares, cheiro de história do Japão antigo em qualquer canto.
Conversei bastante com a Asada sobre o Japão, os japoneses, e sobre a relação entre os chineses e os japoneses. Ela ensina o japonês a estrangeiros e já viajou para a Europa, Filipinas e Tailândia. Inteligente, me falou muito de suas opiniões acerca da cultura japonesa, do que é ser japonês, de sua personalidade. Falou um pouco do que já escrevi neste blog num post passado, que os japoneses nem sempre falam o que se passa em seus corações.

Que entre Japão e China aindam restam mágoas do passado e que ainda vai precisar de uma geração ou duas para desaparecer.

Que a China não dá a indepêndencia ao Tibet e a Taiwan porque se fizer isso faria com que muitos de suas províncias reinvindicassem a separação também.

Que entre Toquio, Seoul (Coréia) e Taipei (Taiwan), como houve muita influência da cultura norte-americana, tem uma grande identificação e troca de informações.

Que a escrita chinesa chegou ao Japão através da Coréia, e portanto, muitas palavras coreanas são parecidas com as japonesas. Um coreano(a) demora pouco tempo para aprender o japonês por essa causa.

Por outro lado tentei explicar um pouco da vida dos nikkeys brasileiros, que me acho um cara de sorte por poder conhecer os dois lados da moeda do mundo.

Deixei esta para a última, apenas para os que tiverem paciência para chegar ao final deste longo post.
Ela me falou algo que me chocou. Disse que se você perguntar para um japonês(a) se gosta do Japão ele(a) provavelmente irá dizer que não.
Perguntei por que o japones nao gosta do Japão e ela me falou que o problema são os japoneses. Daí quis ir mais fundo e perguntei qual o problema dos japoneses. Ela me disse aquilo que eu já estava sentindo aqui, que os japoneses nem sempre agem da forma como estão se sentindo. São muito polidos por fora mas nem sempre isso é verdadeiro. Que as pessoas demoram muito para confiar uma nas outras e isso acaba criando panelas, e, se voce entra numa panela você deve respeitar suas regras pois se o japonês não sente que você é um igual, ele não vai se abrir contigo.

Ela ainda me disse muitas coisas. Ainda não consegui digerir tudo o que ela me disse e sinto que isso ainda vai demorar um tempo. Ela, apesar da clareza com que expressava suas idéias sobre o próprio país, sinto que ela é um pouco negativista. Não vi ela elogiando uma vez o Japão, a não ser quando falamos da rivalidade entre japoneses e chineses. Pronto, já sei o que o Japão tem de ruim. Agora só quero saber o que ele tem de bom!!

Momotaro Odori à tardinha, voltando pra casa...não sei se eu sou um ótimo fotógrafo ou o cenário que estava bonito mesmo....acho que os dois!!! hahahaha