quinta-feira, agosto 31, 2006

Ditado japones

Ontem, quarta-feira, meu professor colocou um ditado japonês na lousa para os alunos. Segundo ele, este é um ditado antigo, onde ainda se utiliza um linguagem antiga, que não se usa mais.
Ninguém deu muita bola pro que ele escreveu. Acho que ele já sabia disso. Acho tambem que ele sabia que às vezes um ou outro olha com maior atenção e assimila a verdade daquilo.
Sua tradução fica mais ou menos assim:

As flores do vizinho sempre parecem mais vermelhas
Ao olhar para o lado você se distância de suas flores
O musgo não cresce nas pedras que rolam pelo rio

domingo, agosto 27, 2006

Cavocando as raízes da família Murakami


Eu e o casal Murakami. O homem à direita é o Kazutoshi Murakami


Um portal gigante que fica no interior de Okayama



Num dos templos que visitamos, nao me lembro o nome. Foram vários...

Sábado, dia 26 de outubro de 2006, fui encontrar com o primo do meu pai, o Sr. Kazutoshi Murakami. Em japonês, Murakami-san.

Juntando meu parco conhecimento do japonês e seu acentuado sotaque da região de Okayama, acho que consegui entender uns 40% de tudo que ele me disse. Ele me contou tanta coisa sobre as histórias de nossa família, o destino de cada um dos irmãos e de seus descendentes, sua vida, suas opiniões, seu modo de pensar...como eu gostaria de entender melhor o japonês...me ajudaria em muito a entender melhor o povo japonês.

Deixando as lamentações de lado, redijo aqui o que consegui absorver de nossas conversas.

Kazutoshi Murakami nasceu na cidade de Takahashi no ano de 1937, durante o período da guerra entre Japão e China. Ele é o segundo filho de Tetsuiti Murakami, irmão mais velho de meu avô. Estudou até o colegial em Takahashi e conseguiu cursar uma faculdade, coisa muito difícil para alguém nascido nessa época. Sua infância foi extremamente difícil tendo em vista a Guerra contra os EUA, a falta de comida, buscando refúgio contra bombas, o medo. Trabalhou uns 30 anos como funcionário do governo de Okayama, o que lhe permitia fazer viagens constantes dentro da província. Teve um filho e uma filha. O filho infelizmente morreu aos 10 anos de idade. Sua filha, agora com 36 anos, se casou em maio desse ano. Ele fala rindo que sua filha se casou com um filho já nascido, ou seja, já não era mais virgem. Pensei, é meu caro meio-primo Kazutoshi, os tempos são outros...

Takahashi é uma cidade que fica à beira do rio Takahashi mas que se estende ao longo do cenário montanhoso. Uma cidade interiorana, bela, cheia de histórias, fica num vale, cenário típico da região. O trilho do trem que corre ao longo do rio, montanhas por todos os lados, casas seculares, tudo muito bem cuidado, bonito. A impressão que eu tenho é que tudo parece estar no seu devido lugar, como deve ser.

As casas antigas, comuns na região, são sempre com frente estreita e fundo comprido. Geralmente tem um comércio na frente e aos fundos é onde eles moram. Se tiverem espaço montam um jardim japonês, plantam umas verduras, frutas. Engraçado que a casa da minha avó no Brasil também tem esse formato. Nos fundos ela tem um jardim onde ela cuida d´um pé de caqui gigante, flores e de vez em quando planta umas frutas como morango e outras coisas. Engraçado como essas coisas de educação e coisas aprendidas na infância influenciam no modo de viver das pessoas...

Ele me levou para ver alguns familiares e muitos templos budistas e xintoístas. Um dos templos, o Rakyuji Temple, tinha um jardim japonês belíssimo, bem no estilo zen budista. Dentro dele dava pra sentir uma paz de espírito imensa. Kazutoshi fez um comentário: Seria ótimo se tivesse um copo de sake agora e beber enquanto se admira o jardim...

Por último, falo de meu bisavô. Seu nome era Yonekiti Murakami. Sua mulher se chamava Massano e tiveram 5 filhos. Foi ele que me passou essa minha vista ruim. Seu trabalho era comandar os barcos que transportavam mercadorias, e que corriam ao longo do Rio Takahashi até desembocar no mar. O dia inteiro percorri estradas que andavam ao longo desse rio. O rio é largo, mas raso, pedregulhos nas margens e o cenário de montanhas altas em volta. Fiquei olhando o rio e imaginando meu bisavô remando e navegando aquelas águas. Dá até saudade. Uma vontade louca de tê-lo conhecido, de saber como ele era.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Não percam! A maior peça de teatro já encenada!

A cada dia um novo começo. Percebo que a vida corre como um ciclo, a todo momento reiniciando e reciclando os relacionamentos, como num jogo quando no término de uma rodada apenas muda-se a disposição das peças, trocam-se alguns jogadores e o jogo recomeça, num jogo sem fim. O eterno jogo da vida.
Pessoas vão, alguns ficam e novos personagens entram na estória. Cada vez mais tudo parece uma monumental peça de teatro, uma grande mentira.
No final da tarde, olho para o céu, o horizonte. Um céu de azuis, violetas, roxos, laranjas. Belíssimo. Como se tivesse uma grande mão por trás pintando aquela cena. E os prédios que de dia pareciam tão reais, agora parecem maquetes de um cenário feito de papel e plástico. Tudo parece não ter tanta importância assim. Talvez o crepúsculo tenha o poder de revelar certas coisas que não vemos em outros momentos.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Pessoas, histórias, experiências...

Fotos dos últimos dias, o que tenho feito de bom, os eventos que tenho participado.


Domingo de tarde, num almoço de cultura do Laos. Quem nos chamou foi a família Tanaka que fizemos homestay. A garota no centro dançou uma dança típica do Laos para os cinvidados


Com o pessoal do Sawara num jantar de comemoração do segundo lugar no Matsuri


Segunda-feira, com a Minami-san, irma do meu avô e a filha dela.


Terça-feira, jantar de boas-vindas ao Edu e a Linade Tóquio, num restaurante de Curry com a galera de Okayama

O Caminho do Japonês

Minha mãe me mandou um email hoje com uma mensagem da Seicho-No-Ie muito boa. Posto aqui para compartilhar com todos:

"QUEM APROVEITA BEM O TEMPO VIVIFICA A PRÓPRIA VIDA". Se você sempre tiver à mão um livro e um caderno, poderá ussar seus momentos livres de modo bastante proveitoso, lendo, tomando nota, redigindo algo, esboçando um desenho etc. Pare de se lamentar que não dispõe de tempo. Tempo é algo que deve ser criado, encontrado, explorado, aproveitado, vivificado. A Vida é tempo, e, por outro lado, o Tempo é Vida.

Recebi uma revista de Artes e Cultura do Japão de uma amiga de minha tia de Kobe. Um de seus artigos fala sobre o grão-mestre de cerimônia do chá, a décima-sexta geração de uma família de mestres, um cara chamado Sen Soshitsu.

De acordo com o texto, o Chado, ou o Caminho do Chá, nasceu no século 14, incorporou o espírito Zen, e sobrevive até hoje como parte integral da cultura japonesa. É definido como uma meditação silenciosa. Meditação em movimento. Convidando pessoas para tomarem chá, fazendo o chá e servindo-as, cultiva-se o espírito e as maneiras.
Suas palavras: Assim como um monge Zen pratica sua vida inteira no seu aperfeiçoamento espiritual, a pessoa que pratica o Chado deve praticar sua vida inteira, dia após dia, na sala de chá.

A Cerimônia do Chá reflete em muito o modo de agir do japonês. Percebo isso em cada lugar que vou, numa loja de conveniência, na rua conversando com as pessoas, numa roda de amigos. O japonês dá extrema importância à polidez, ao ser gentil, ao sorriso. A aparência, o visual é sempre impecável, em qualquer lugar que se vá.
Na própria língua japonesa, há formas diferentes de se falar com as pessoas. Para cada situação as palavras que se usam são diferentes. Por exemplo, há jeitos diferentes de se falar "você". Quando a pessoa é inferior a você, como um empregado, um filho, alguém mais novo; quando a pessoa é igual a você, como um amigo, alguém de mesma idade, alguém com mesmo cargo; ou alguém superior, como seu chefe, seus pais, alguém mais velho.
Nas lojas, os funcionários sempre usam a forma mais polida para falar com os clientes. Essa coisa do treinar as maneiras, o modo de agir para polir o interior.

Até o próprio cumprimentar, onde se abaixa a cabeça, na minha opinião reflete um pouco isso. Não é um cumprimentar de mãos, onde a imagem é de uma parceria entre iguais. Num cumprimento típico japonês, o que parece para mim é o se rebaixar, mas não num sentido ruim, negativo, mas que demonstra humildade perante a pessoa que se cumprimenta. O que nos remete à filosofia Zen budista, o ser polido sempre, nunca criar intrigas, nadar sempre pra aonde a maré corre, a fluidez, o redondo, macio. Nunca quadrado, arestas pontiagudas. Sempre arredondado.

Mas percebo também que muitos japoneses aprendem a ser polidos sem compreenderem o real significado de tudo isso. Quantas vezes não entrei numa loja e o que vi atrás da máquina registradora era um robô repetindo palavras polidas sem sentimento algum, ou pior, e como na maioria das vezes, sem sequer olhar no meu rosto. Sempre que posso, tento parar e olhar nos olhos das pessoas e procurar um olhar, dar um sorriso, dizer Arigatougozaimasu e sair.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Algumas fotos da escalada do Monte Fuji


O comeco da viagem, no quinto estagio do Monte Fuji.


Uma vida por um amanhecer

Monte Fuji. A melhor aventura que já vivi. Um desafio que colocou minha confiança e perseverança à prova.
Conversando com o Leandro, a idéia de subir o Monte Fuji surgiu por acaso.
Começamos a caminhada lá pelas 7 da noite, quase anoitecendo. Um subida íngreme, difícil. Muita pedra, terra e poeira que dificultavam a caminhada. Muitas paradas para descanso, recuperar o fôlego, molhar a garganta com isotônico e seguir viagem.
Foram 5 horas de subida pela rota Fujinomiya, a mais curta, mas a mais íngreme, segundo o que ouvi.

Quando cheguei ao topo, achei que tinha sido fácil. Subimos rápido, sem paradas grandes. Mal sabia eu que o maior desafio estava por vir.

Chegamos ao cume às 0:30 da segunda-feira. Estavamos cansados e assim como todos os que lá estavam, deitamos na terra mesmo e tiramos um cochilo. Uma hora depois acordei de frio, meus pés e minhas mãos estavam gelados, apesar das luvas. O vento cortante irritava meu rosto. Meu nariz e as pontas da minha orelha estavam vermelhas pelo frio.

À medida que o tempo passava, o frio ia subindo pelo meu corpo através dos pés, das mãos, do rosto. Minhas pernas, que antes estavam aquecidas pela roupa já não conseguiam mais conter o calor. Uma sensação horrível, um arrependimento de ter chegado tão cedo, de não ter trazido um gorro, um saco de dormir, uma barraca para nos proteger do frio, uma toalha para cobrir o rosto.

Às 4 da manhã, eu já pensava em desistir de assistir o nascer do sol. Já não aguentava tanto frio e minha confiança estava totalmente abalada. Tinha resistido até aquele momento com minha postura positiva mas ela já estava se esgotando.
Foi quando olhei o céu e percebi uma claridade no horizonte. Estava finalmente amanhecendo! Corremos para um ponto mais alto para admirarmos mehor o espetáculo.
Sem nuvem alguma. Sem chuva. Sem dúvida, a cena mais bela que já tive em minha vida.

Do cume do Monte Fuji, como se fosse um Deus que do alto tudo enxerga, presenciei os primeiros raios de luz. O céu era uma gama de cores que vai do vermelho, do violeta, do amarelo, azul , azul escuro. Um azul que nunca tinha visto antes, puro, límpido. O mais belo gradiente de cores. Vi quando a luz começou a alcançar as cidades que antes estavam obscuras. Vi o litoral, o mar, a terra. E o sol vermelho, como um olho de fogo que surge no horizonte. Magnânimo. Como um rei que vem em minha direção com seu reluzente manto vermelho.

Neste momento, esqueci quase que inteiramente do frio que me dominava. O desafio tinha chegado ao final e eu tinha vencido. Vencido o frio, vencido as circuntâncias, vencido a mim mesmo.

Ao final, um agradecimento especial a meu grande amigo Leandro. Desde o começo me identifiquei contigo e desde então tenho dado muitas risadas nestas nossas andanças pelo Japão. Esta viagem não teria sido perfeita como foi sem sua companhia. E no momento mais difícil, em que o frio parecia que ia me vencer, sua energia e bom humor se sobressaíram e me ajudaram a aguentar aquela noite sem fim.