
O guetá é a sandália tradicional japonesa. É basicamente um chinelo de dedo. Sua base é feita de madeira, mais ou menos uns 7 cm de espessura. A parte que segura o pé é feita de tecido de algodão, mas já vi de sintéticos também.
Enquanto segurava nas mãos o guetá, percebi uma beleza nas texturas dos materiais, os desenhos japoneses no algodão, a textura rústica da madeira. Outra coisa que percebi: o guetá era simétrico, ou seja, não dava para diferenciar o pé direito do esquerdo.
Mas calçando-o percebi que por ser tão simétrico, o pé acabava ficando torto. O tecido que divide o dedo polegar do pé do resto dos dedos fica preso exatamente no centro da madeira, diferentemente de uma havaiana comum, que é mais ergonômica.
Outro ponto importante, como a base de madeira, depois de um tempo ele fica extremamente desconfortável. Muito duro. Palmilha é algo que os antigos realmente não conheciam.
Pensando nisso, fiquei a me perguntar se esse exemplo talvez não mostrasse um pouco da personalidade do japonês, muito preocupado com a forma e não com o conforto. Eles dão extrema importância à polidez, à elegância, à gentileza. São um povo pacífico, odeiam brigas, odeiam se opor, criar polêmicas, controvérsias. Não gostam de serem o centro das atenções. Por causa disso, trabalham muito bem em grupo, por seguirem sempre o centro o que os torna unidos.
Isso, no meu ponto de vista, tem seu lado positivo mas também seu negativo. O que ouço muito dos estrangeiros que vivem em Okayama é que os japoneses são muito polidos, mas não se sabe o que eles realmente estão pensando. Estão sempre sendo educadíssimos, sempre sorridentes, mas é como se isso tudo não fosse o real sentimento, como se estivessem usando máscaras. E isso é nítido em qualquer lugar, num supermercado, numa loja, em um bar, andando nas ruas. Claro que tratar bem os clientes numa loja é regra em qualquer lugar do mundo, mas aqui é ao extremo.
No entanto, é obvio que isso não se resume a todos. Encontro aqui todos os dias pessoas verdadeiramente polidas, simpáticas, gentis por natureza. Que possuem um espírito de liderança muito forte. Tal como neste domingo, enquanto assistia a um treino do grupo de dança Sawara. A líder do grupo era uma mulher daquelas que não podia deixar de admirar. Tinha mais ou menos uns 33 anos, 1,60 cm de estatura, magra, pele alva como todas as japonesas. Foi estudar na Austrália durante um ano. Dançava muito, mas muito bem. Movimentos e voz firmes, sem no entanto perder a feminilidade. Não tive muita oportunidade de conversar com ela mas em tudo em que fazia se mostrava uma líder.